Atestado de Capacidade Física

Wow! Estreia é estreia e antes de mais nada gostaria de agradecer ao parceiro de treinos e gente-boa-demais Andre Raittz pelo convite para fazer parte desse seleto grupo de colunistas do Vida de Triatleta.

Inicio minha cooperação no blog trazendo um assunto que interessa a todos os que estão flertando com treinos intensos como o triathlon:o que meu médico deve investigar na consulta de rotina para atestar minha capacidade física com segurança?Afinal, embora tenha dado uma sumida dos noticiários, as mortes súbitas de atletas profissionais e amadores durante provas ainda existem e são um fantasma que pode ser exorcizado.

Tentarei responder essa pergunta como médico, embasando-me no que temos de informações científicas mais atuais no tema.

Por consistir de natação, ciclismo e corrida, o triathlon contempla as necessidades de avaliação de cada uma das modalidades.

O atestado para piscina, por exemplo, não aumenta só a sua segurança, mas a de todos. Ao realizar um exame dermatológico para exclusão de lesões de pele transmissíveis, como as micoses, os atletas impedem a disseminação dessa afecção pelos ambientes úmidos do vestiário e pelas bordas das piscinas.Importantíssimo o tratamento das frieiras e micoses de unha antes de encarar a piscina!

No que tange os três esportes, obviamente quando treinados com afinco, exige-se excelente aptidão cardiorrespiratória, o que torna o exame de avaliação cardiológica mandatório.

Eu já ouvi algumas vezes de amigos que não curtiram o “checkup” de colegas médicos porque estes simplesmente não pediram nenhum exame sequer. Pois eu lhes digo, um exame clínico completo é o suficiente para a maioria dos atletas. Exames complementares, mesmo simples como o eletrocardiograma, não precisam ser feitos para todo mundo. Através de uma boa avaliação da história pessoal e familiar, além de um exame físico direcionado, o médico identifica quem merece uma investigação maior.

Os pontos chave da história pessoal são: idade (maiores de 35 anos merecem uma atenção especial), história de dor ou desconforto no peito desencadeados por esforço, desmaios inexplicáveis, falta de ar ou cansaço importantes associados à atividade física, sopro no coração previamente diagnosticado e pressão arterial elevada. Se você apresenta algum desses sintomas, certamente seu médico fará uma avaliação pormenorizada.

Da história familiar, questiona-se sobre morte súbita e inesperada em familiares de 1º grau antes dos 50 anos, incapacidade por doença cardíaca também em parentes próximos com menos de 50 anos e conhecimento de algum membro da família com doenças cardíacas como cardiomiopatia hipertrófica (doença que aumenta o tamanho do coração), síndrome do QT longo (um tipo de alteração no eletrocardiograma) ou outras arritmias clinicamente importantes. Estas alterações podem significar doenças de herança familiar, que embora sem manifestação clínica, têm potencial para causar morte quando associadas a esforço intenso. Por isso, nesses casos também os médicos procedem uma investigação maior.

No exame físico, deve-se medir a pressão arterial nos dois braços, auscultar o coração e verificar os pulsos periféricos nas pernas, além de afastar os sinais sugestivos de doenças genéticas como a síndrome de Marfan (alteração no cromossomo 15 que leva a alterações como alta estatura e doenças das valvas cardíacas). Estes achados podem ter significado clínico e merecem ser observados com cuidado.

Finalmente, outro ponto fundamental de uma boa avaliação médica pré-treino consiste na detecção de sinais osteomusculares que possam sinalizar algum tipo de predisposição de lesão.

Pessoas com desvios acentuados de coluna, pouca massa muscular, história de lesões anteriores e/ou cirurgias devem ser monitorizadas mais de perto, com atenção conjunta de toda a equipe multiprofissional, contando com a ajuda especializada do profissional de educação física, do fisioterapeuta e do nutricionista.

Espero ter conseguido sintetizar o tema nestas poucas linhas, sempre lembrando que o mais importante é o alerta de jamais deixarmos (médicos e atletas) de fazer a avaliação clínica completa, pois é a única maneira de evitar mortes trágicas de esportistas, jovens ou não, como vemos todo ano no mundo inteiro. Ou seja, fuja do atestado que o seu amigo médico lhe dá sem sequer lhe examinar!

Carlos Sperandio

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