Não consigo organizar meus pensamentos a não ser escrevendo. Acho que é uma virtude, mas também um defeito! Fiz muito colega de escola passar de ano com meus famosos “resumos”. CDF ao extremo!

Desde a prova do Ironman 70.3 Brasília, a necessidade de escrever ficou quase sufocante.

O tema gira em torno das provas das grandes franquias.

Sempre achei que tinha uma opinião formada, mas ao ler mais um texto brilhante do Vagner Bessa, percebi que meu argumento anterior era frágil e não convencia nem a mim mesmo.

Sempre achei que era mérito da WTC, com uma estratégia sólida de marketing, fazer das provas de Ironman, um acontecimento da vida, uma superação do extremo, um rito de passagem, e blá, blá, blá…

Durante algum tempo eu também embarquei nessa.

Depois de concluir um Ironman, a sensação é realmente maravilhosa de conquista, principalmente quando você consegue polarizar pessoas queridas e colocá-las dentro da sua prova, fazê-las vibrar com essa conquista, que passa a ser de todos. Isso é real. Isso existe! Não é marketing meloso. Por isso valeria a pena repetir essas provas que tomam tanto tempo do seu esforço, da sua dedicação, do seu convívio familiar.

Qualquer outra coisa, é historinha pra entrar no dvd.

Com isso, meu argumento cai por terra e eu estou “órfão de opinião”.

Sempre tive orgulho de vestir minhas camisetas das provas, como trofeus de batalha, mas pra ir para este 70.3 Brasília, só peguei camisetas lisas, de nenhuma prova. Não sei o motivo. Ao retornar, vejo outro texto genial do Beto Nitrini, que dizia se sentir um ET na Expo, sem  camisa de finisher de alguma prova em qualquer canto insólito da Via Láctea, sem aquelas faixas de fisioterapia e sem viseira (dentro de um prédio fechado). Então, eu também me coloco na lista de ET perdido. Aliás, como bem descreveu nada mais, nada menos que Ana Mesquita, recordista sulamericana da Travessia do Canal da Mancha, estar em evento destes, com caras fortes, magros, altos…e você olhar pra você e se achar um frango, é um exercício monstruoso pra autoestima. Quase sempre ela te derruba. Mas aí chega no dia e você consegue chegar na frente daqueles caras “fantasiados” de triatleta…

É impressão minha ou, por nosso esporte ter um gene havaiano em comum, estamos revivendo a divisão entre “triatletas competidores” e os “triatletas de alma”, como os surfistas faziam na década de 80/90 (ou ainda fazem, não sei)

Nesse momento, começa a fazer sentido pra mim (até então, confesso que não fazia) a ideia de provas de triathlon como se fazem os audax no ciclismo: apenas pela curtição de se fazer triathlon! Triathlon pelo triathlon. Os Soloman e eventos congêneres (se é que existem). Não competitivo, sem o glamour de grandes marcas, sem as dramáticas historias de superação, mesmo que seja apenas a superação de um garmin sem bateria durante a prova, porque convenhamos, cansa um pouco ler historinhas de gente bem nascida, bem crescida, bem nutrida, bem sucedida, gritando aos quatro ventos das redes sociais: “só eu sei o que eu passei para cruzar essa linha de chegada….”. Passou por o quê, mesmo?

Será que estou começando a mudar de opinião? Não tenho essa resposta.

Só sei que o que existe de mais legal no nosso esporte é a democracia que te permite competir no mesmo palco que seus ídolos e na mesma prova. De se colocar atletas comuns como eu e você, ao lado de Leandro Macedo e Marcello Butenas (de quem já fui aluno no fim dos anos 90) nas filas de check in. Encontrar e tirar fotos com Mark Allen na transição de uma antiga prova (realmente) internacional no litoral de São Paulo. Ser aluno do Emerson Gomes, um dos principais nomes da primeira geração do triathlon nacional. Estar lado a lado da Mirinda “Rinny” Carfrae na fila do banheiro químico (cada um na sua, claro) e ver a cara de nojo dela ao entrar na cabine…e apesar disso, fazer o que tinha que ser feito. Pelo menos ela se fechou lá dentro….

Ao invés disso, nosso esporte esta sendo tomado de assalto por organizadores de provas cada vez mais arrogantes e prepotentes, que se julgam maiores do que o esporte e os atletas. Cobram os olhos da cara, entregam o mínimo exigido, ou até abaixo do mínimo e se acham os mecenas do esporte.

O que mais me incomoda em não ter uma opinião formada, é ficar em cima do muro, sem coragem de abrir mão de fazer as provas para as quais nos dedicamos ou então, finalmente virar um “triatleta de alma” e no fim, perder a motivação.

Enquanto isso, estou no grupo que, apesar de ficar incomodado com o rumo que as coisas estão tomando, estarei alinhado em Foz do Iguaçu. Parte porque eu ainda tenho esperança que haja amor pelo esporte dentro do tórax de quem nos proporciona as provas. As que eu perdi as esperanças, como um ancião circuito no litoral paulista, eu já desisti.

Meio sem rumo, mas ainda persistindo.

Bons treinos

Daniel Blois

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