Divisor de Águas?

No dia 5/3/2014, o alemão Jan Frodeno, campeão olímpico de triathlon em Pequim 2008, venceu o Ironman 70.3 de St. George, Utah em aproximadamente 3 horas e 45 minutos.

Muitos podem pensar: pô, o cara é campeão olímpico!!! Qual a surpresa?

A surpresa é que o mundo do triathlon é dividido em dois completamente distintos: em um deles, vivem os caras da ITU, que competem distâncias olímpicas, em provas com vácuo permitido no ciclismo. No outro mundo, os caras das longas distâncias, geralmente com provas onde o vácuo não é permitido (se acontece ou não, esse é outro problema).

Essa diferença cria provas absolutamente diferentes. Na ITU, a natação é de vital importância. Se você nadar mal e perder o grupo principal, sua prova já era, pois o ciclismo costuma ser forte sim, mas pouco desgastante (se é que podemos falar em “pouco desgaste” médias de 300 Watts), pois ocorre sempre em grandes aglomerações. Todo mundo já viu alguns dados recentes demonstrando que o vácuo de UMA bicicleta economiza cerca de 30% em Watts para quem vem atrás. Não preciso ficar me alongando nas enormes vantagens de se andar na roda. A corrida dessas provas costumam ser alucinantes. Caras de outra galáxia como os irmãos Brownlee e o espanhol Javier Gomes, frequentemente superam a barreira dos 30 minutos nos 10 km.

Em provas como Ironman e Ironman 70.3, a proibição do vácuo transforma a natação em formalidade. Ela não te tira da prova. O ciclismo é muito importante, pois o resultado passa a ser construído nessa fase. Por fim, a corrida, onde você vai colher os frutos da estratégia adotada no ciclismo.

Muitos caras da ITU têm feito provas de longas distâncias. Os motivos a gente tenta discutir depois. Pois bem, o alemão Frodeno, um cara da ITU,  pedalou sem vácuo (esperamos) com média de velocidade de quase 42 km/h (em 2 horas e 10 minutos) e correu com pace de 3’17”km (em 1 hora e 9 minutos). Segundo a descrição da página do evento, os percursos de ciclismo e de corrida em St. George são os mais desafiadores de todo o circuito Ironman.

Apenas para comparação, o recorde mundial da meia maratona foi batido em Lisboa (2010) pelo “canela fina”  Zersenay Tadese, da Eritréia, com o tempo de 58’23”.

O tempo é um abismo? Sim e acredito que seja intransponível. Nenhum triatleta vai bater recorde de distâncias dos esportes que constituem do triathlon por diversos motivos. O desgaste das modalidades já completadas, constituição física, percursos que nas provas isoladas (maratona e meia maratona) priorizam a quebra dos tempos, enquanto os Ironman e meio Ironman adoram uma dificuldade….e também o suco de beterraba do Bolt…

Mas pô…1:09’’ É um BAITA tempo pra quem já nadou 1900m e pedalou 90Km, não é não?

Mas o que o cara amador que tá curtindo a prova, que sabe que não vai disputar pódio ou vaga pra mundial, tem a ver com isso?

Bom. Acredito que estamos em um momento de transição no nosso esporte.

O que está levando os caras da ITU pro circuito Ironman? Idade chegando? Desgaste causado pela intensidade das provas curtas?

Com o vigor e resultados que os caras estão colocando nessas provas mais longas, duvido muito que esse seja o motivo.

Tenho a sorte de ser amigo de um cara há mais de 20 anos. Esse cara além de amigo é o cara em quem mais confio quando o assunto é corrida. Não por acaso, é meu treinador. Mesmo quando precisei renovar os ares e mudar de equipe, sempre buscava conselhos com ele. O cara é nada menos que Cláudio Castilho, um dos melhores técnicos de atletismo de alto rendimento do país, do Esporte Clube Pinheiros.

Perguntei o que ele achava desse período que vivemos.

Como tudo na vida, vivemos ciclos que se repetem. Segundo ele, nos anos 90 houve uma grande migração de atletas de pista para provas de corrida de rua (meia maratona e maratona). Parte porque havia uma limitação de número de atletas por países nas provas das ligas de atletismo (não tinha como colocar 30 quenianos alinhados em um mesma prova de pista) e parte porque os prêmios das provas de rua começaram a chamar muita atenção. Portanto, uma razão bem possível para essa migração no caso do triathlon é a grana envolvida. Ninguém discute que a WCT trouxe GRANA pra parada. O apelo é forte.

Voltando aos anos 90, preconizava-se treinos para maratonas com até 300km semanais e pouca (ou ZERO) intensidade. A ida de atletas de pista para a rua, trouxe um mundo de possibilidade na área de treinamento. O auge disso foi a quebra do recorde mundial que já persistia por 10 anos em Berlim (1998), por um brasileiro: Ronaldo da Costa (o cara que ganhou a São Silvestre na primeira prova que participei), com 2:06’05”. Esse resultado em Berlim foi conseguido graças à mudança radical nos métodos de treinamento, usando parâmetros bioquimicos, como testes diretos (no sangue) de lactato além de hormônios como cortisol. Isso tornou os treinos mais eficientes, com tempo adequado de descanso, de acordo com os exames realizados antes, durante e após as sessões.

Os maratonistas passaram a fazer treinos de intensidade, descansar mais e fazer (muito) menos volumes. Prova que o caminho trilhado foi o certo, desde 98 já tivemos inúmeras quebras de recorde, sendo dez apenas nos últimos dois anos. Atualmente o recorde está na casa dos 2:03′.

Esse fenômeno de mudança nos métodos de treinamento não aconteceu só na corrida. Quando me dei por gente, assisti ao Ricardo Prado ganhar prata em Los Angeles na prova dos 400 metros medley, em 84(?). Nas entrevistas que esse cara dava, ele dizia nadar uma média de 15 a 20 km por dia. Depois, na geração seguinte, os volumes giravam na casa dos  6 a 10 km, com mais qualidade e principalmente, mais medalhas na bagagem olímpica.

Aí eu repito a pergunta? Estamos num momento de readaptação, na qual colheremos os frutos da evolução dos treinamentos de atletas de alto nível para uma melhor performance nos grupos etários?

O mestre Cláudio é categórico. Ele conta que acompanha o desenvolvimento do treinamento do triathlon no exterior, onde a gestão desses treinos está sendo feita por equipes “multidisciplinares”. Está se deixando de lado o conceito do triathlon como esporte único (o famoso nadapedalacorre), com um treinador para as três modalidades, para se tornar um esporte que se aproveita da evolução dos esportes de origem, individualmente. Treinadores especialistas em cada modalidade, coordenados por um treinador principal, que faz a periodização de acordo com um planejamento. E ele é ENFÁTICO nesse ponto. É necessário um planejamento. Triatletas (até os medalhões) adoram fazer adaptações nos treinos, sem embasamento, podendo até prejudicar a temporada ou a carreira.

Vamos esperar para ver o que o futuro trará.

Eu apostaria minhas fichas nessa evolução. Nosso esporte é novo se a gente considerar que a primeiríssima maratona foi percorrida por Fidípides em 490a.C. e o primeiro triathlon em 1978, no primeiro Ironman. Há quem diga que o primeiro triathlon aconteceu em San Diego, em 1976, mas essa também é outra história.

Considerando tudo isso na área de treinamento,  com toda evolução tecnológica que acontece em um piscar de olhos, além dos “aditivos químicos”, que não adianta se fechar os olhos hipocritamente (…eles continuarão a existir), muita água vai rolar por debaixo da ponte, muito asfalto vai queimar pneus e solas de tênis multicoloridos mundo afora e os tempos necessários pra Kona vão continuar caindo vertiginosamente, ano após ano.

Viva os novos tempos.

Daniel Blois

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