Pergunte a um grego e ele vai te dar uma origem grega pra cada palavra que você disser.

Empátheia, palavra grega que significa “entrar no sentimento”, o que pressupõe deixar de lado qualquer opinião ou julgamento para sentir o que outra pessoa sentiria naquela situação.

É a tal empatia que nos consterna toda vez que um avião despenca e leva consigo centenas de pessoas, a maioria delas em momentos felizes, como viagens, retorno de um trabalho em lugares distantes, entre tantas histórias possíveis.

Empatia que nos faz sentir tristeza por acontecimentos estúpidos e trágicos com pessoas que nunca vimos ou trocamos uma palavra sequer.

Apesar de muitas pessoas que possam ler este texto estarem em outras cidades ou outros estados e eu me esforçar pra ser o menos “bairrista” possível, existem coisas que estão além dessas fronteiras. Isso também pode ser atribuído à empatia, pois pode acontecer com qualquer um de nós, em qualquer lugar que moremos.

Já escrevi diversas vezes, inclusive a aqui nessa coluna, as dificuldades de se treinar aqui em São Paulo e a delicada relação entre atletas das principais modalidades “de rua”.

Por absoluta carência de espaço físico apropriado, treinamos em um lugar que poderia ser um paraíso do esporte amador, mas não é. A primeira coisa que a administração do campus da USP faz quando acontece alguma coisa que pode ter grande repercussão é desvincular as pessoas envolvidas com a entidade, eximindo-se de responsabilidades.

O campus, como já dito, é um espaço enorme e murado. Tá mais pra uma panela de pressão prestes a explodir todos os dias.

Às vezes explode.

Sábado deve ser um dia tenso pra que trabalha lá dentro. Milhares de pessoas começam a chegar entre 4 e 6 da manhã. O congestionamento de gente correndo, pedalando, patinando, esquiando (SIM, ESQUIANDO) lá pelas 9 da manhã é impressionante. Nessa hora, muita gente começa a chegar de carro pra aulas ou rotinas de trabalho e/ou estudo nas faculdades e laboratórios. E muita gente começa a ir embora também. Já perdi meia hora tentando sair da USP de tanta fila de carro.

Uma imagem que NÃO vi neste  sábado 16 não me sai da cabeça. Um carro em alta velocidade invadindo a faixa da rua que normalmente é ocupada por corredores e acertando uma pessoa, que foi arremessada por uns 50 metros sobre uma arvore e caiu encolhida no chão, com um ferimento grave na cabeça e muito sangue no chão. Além dessa pessoa, um senhor de 67 anos muito conhecido e muito querido pelo pessoal local, outras três pessoas foram atingidas com gravidade.

Eu estava muito perto do local na hora. Estava terminando uma perna de bicicleta, passei por três pessoas conhecidas e fui para a minha base, enfiar o tênis e sair correndo para encerrar a “sessão tortura”. Nos primeiros 500m da corrida, ouvi sirenes e dois carros da polícia muito apressados. Um helicóptero sobrevoava os prédios próximos à reitoria. Já pensei que alunos tinham ocupado o prédio (muitas faculdades estão em greve), ou então alguém tinha sido assaltado de novo, já imaginando um desfecho mais sério, além das perdas materiais. Já me peguei torcendo por uma ocupação da reitoria.

Quando cheguei perto de onde é a reitoria, vi um helicóptero Águia da polícia militar pousado em uma praça. À direita, na rua que dá acesso à USP, um cenário de guerra, com inúmeros carros de polícia, viaturas de Resgate. Meu caminho não passava por lá naquele momento.

Um ciclista passou por mim e disse: “Melhor parar de correr e andar só de bicicleta. Quatro corredores foram atropelados por um carro”.

Minha primeira reação foi pensar nas três pessoas conhecidas que vi antes de terminar a perna da bike. Só queria terminar logo meu treino e voltar à base pra saber se todos estavam lá. Felizmente estavam.

Infelizmente porém, quatro pessoas que saíram da cama naquele dia, em última análise para se divertirem, não voltaram pra casa. Uma delas não vai voltar nunca mais.

O senhor Álvaro Teno, de 67, arremessado contra a árvore não resistiu.

Não sei como me colocar no lugar dele. Eu me coloco no lugar da família, dos filhos, dos netos, dos amigos, dos milhares de corredores da USP. Não dá pra medir a tristeza desse acontecimento brutal e estúpido

Até onde pude apurar com pessoas que o conheciam e conviviam com ele, o cara era um exemplo de simpatia, gentileza e dedicação. Tem muita gente de 20 aninhos que não chega perto dos feitos desse senhor de 67 anos.

Coloco-me no meu lugar, e penso que o “volta logo” que ouço da minha esposa antes de cada treino e o beijo de boa noite nas crianças na noite anterior, poderiam ter sido os últimos. Não é nenhum consolo pensar que ele “morreu fazendo o que amava”.

Ele foi assassinado por um motorista bêbado em alta velocidade dentro de um lugar, apropriado ou não, cheio de gente vulnerável e indefesa.

Vamos chegar à conclusão que é melhor ficarmos em casa, desistindo de viver diante de tanta violência das mais diversas naturezas, que somos obrigados a aceitar como parte do dia-a-dia?

Ou vamos tomar alguma atitude concreta, como ser tolerantes e bem-educados no trânsito, desistindo de levar tudo como ofensas pessoais? Vamos respeitar limites de velocidade? Sinais de trânsito? Faixas de pedestre? Efetivamente zelar por veículos mais frágeis que os nossos, onde bicicletas e pedestres têm que ser respeitados acima de todos (a recíproca também tem que ser verdadeira).

Ou vamos nos isolar cada vez mais?

Enquanto essa sociedade consciente e educada for apenas um sonho distante, cabe a todos nós fazermos nossa parte. Nunca negligenciarmos nossa segurança. Nunca acharmos que “eles que parem ou desviem”. Estarmos sempre adequadamente vestidos para chamar à atenção. Atentos e NUNCA COM FONES DE OUVIDO.

Hoje meu treino foi em homenagem ao Álvaro Teno. A cada metro que avançava, pensei nele e no quanto ele vai fazer falta pra quem convivia com ele.

Que ele continue correndo na lembrança de todos.

Daniel Blois

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