Existem certos momentos na vida em que nada se torna tão importante quanto a simplicidade. Atravessamos alguns percursos dolorosos, enfrentamos medos e dúvidas seja nos relacionamentos interpessoais, na nossa vida profissional ou em qualquer esfera que demande um pouco de auto-conhecimento. As vezes somos reféns da nossa atividade social, atividade essa que nós mesmos nos colocamos e construímos com o passar dos dias, dos meses, dos anos.

Toda construção deixa resíduos, é impossível subir um arranhacéu sem descartar muita coisa. Acredito que no esporte somos eternos engenheiros e mestres de obra da própria “carreira”, construímos e desenhamos planos, objetivos, metas e sonhos como quem toma um café ou assiste televisão no domingo a tarde, a facilidade que um atleta tem de se projetar é algo impressionante. No desenrolar da nossa própria história precisamos sempre descartar coisas que já não brilham mais como outrora para dar lugar a novas descobertas, oras, se não se ganha dinheiro para limitar a vida fazendo uma coisa só, porque se encabrestar de delírios? A felicidade vem com vários acessórios.

Foi pensando assim que eu desenvolvi o meu gosto pela terra, talvez influenciado pelas quase duas décadas de interior aonde correr por potreiros e matagais não era nenhum evento especial no dia-a-dia, talvez por pedalar todos os dias, mais de 4h por dia brincando de motocicleta (com o famoso motor de garrafa pet preso no tube traseiro) pelas trilhas, calçamentos, campinhos e estradas de chão, talvez sim, talvez não. A razão exata desse sentimento novo eu não sei, a única coisa que eu sei é que a vida sempre tem razão.

Quando algumas coisas começam a se embaralhar na cabeça a minha forma de me manter firme é simplificar, pensar nos porquês e descartar os “se” (se eu tivesse corrido, se eu tivesse me inscrito, se eu tivesse reforçado…). Quando tudo começou a ficar pesado tratei logo de usar a estratégia de emergência, me cerquei de pessoas positivas e me joguei de cabeça em tudo que me fazia sentir melhor, independente do que fosse, e aí a terra veio com tudo. Pensei: porque não experimentar algo novo para sair da rotina? Ainda bem que tive coragem de me sujeitar a experimentação, quando as coisas que amamos se tornam tóxicas de alguma forma por menor que seja, é melhor rever aonde estamos falhando, quando aquele tênis fantástico está machucando muito, é melhor parar, tirar e ver se não tem nenhuma pedra lá dentro atrapalhando a sua relação com o seu tênis preferido. A vida é cheia de pedrinhas.

Andava carregando alguns paralelepípedos dentro do meu tênis, hoje com a ajuda da terra estou conseguindo tirar. O trail running, o cross duathlon, o cross triathlon, as corridas de aventura trataram de cobrir de lama os fantasmas que tanto insistiam em rodear, hoje me sujo pra limpar a mente, me perco nas trilhas para encontrar um caminho e estou com muita vontade de me dedicar de corpo e alma para retribuir tudo que a terra faz e na verdade sempre fez. É quase uma terapia para conseguir também abordar as corridas na cidade com mais cabeça e com mais coração, não é atoa que o asfalto por mais forte que seja um dia foi estrada de chão. Hoje entendo que para seguir forte na rua preciso ter um pé no mato e que assim seja.

Do pó viemos, ao pó voltaremos. Nunca foi tão verdadeiro, pelo menos pra mim.