Quando a escrita reflete a vida dentro da gente, nada pode ser mais sincero. A coluna de hoje fala sobre uma das passagens filosóficas mais significativas dentro desses 28 anos de estrada nem sempre divertidos porém intensos.

Um monge por si só já é uma figura representativa, uma entidade iluminada que por natureza e dedicação inunda a sua vida de conhecimento e sabedoria. Todos nós temos um pouco de monge, lidamos com as nossas questões na maioria das vezes como quem detém a plena sabedoria e consciência do que estamos enfrentando, por que queremos ou porque passamos por situações das mais variadas. Nosso particular é uma infinidade de sentimentos e pré-conceitos muito bem estruturados aonde somos reis de toda escolha, capitães do mato das próprias agonias e senhores do engenho das próprias emoções. Inocentes que somos maquiamos toda essa falsa sensação de poder para não enxergar que somos na verdade os escravos do próprio destino talvez, destino esse que construímos baseado nas próprias experiências que julgamos serem únicas e exclusivas dotadas de verdades absolutas. Ora pois, se podemos decidir, podemos mudar a vida e a forma com as quais vivemos. Não? Hum…

Dotado de alguma ironia sigo definindo o Escorpião. Um escorpião reservado a sua existência maléfica e terrível habita a terra única e exclusivamente para fazer o mal a quem quer que seja. Um bicho ferroz e ferrenho que desde a sua aparência grosseira demonstra maldade e veneno, não existe como algo assim ser positivo. É só olhar para o bicho que já nos preparamos para se defender, já nos armamos com paus, pedras, Baygons e até armas de fogo (porque não?) para defender a vida daquele horror de bicho sanguinário. Por que passar um tempo a mais tentando entender a vida daquele ser vivo não é mesmo? Muito mais fácil cortar esse problema pela raiz, morre o mais fraco, soberano reina o mais forte. Assim caminha a nossa humanidade, morte ao escorpião mesmo que rei. Aqui não “fulanoqueeununcaentendimasjáodeio”.

Dadas as devidas apresentações entro na parte dinâmica dessa coluna discorrendo sobre a passagem que falei no primeiro parágrafo, certa vez um monge e seus discípulos caminhavam por uma estrada quando ao passar por uma ponte avistaram um escorpião sendo arrastado pela água. O monge rapidamente correu pela margem, entrou no rio e com um gesto delicado toma o bicho nas mãos para salvá-lo quando é picado com força e devido a dor deixa-o cair novamente. Determinado sai da água, apanha um ramo de árvore e em uma nova tentativa dessa vez resgata o animal com sucesso, salvando-o a vida. Voltando para o seu grupo para seguir viagem ele é questionado pelos seus discípulos que perguntam:

-Mestre, sua mão deve estar doendo muito, porque insistir em salvar um bicho tão ruim? Deveria ter deixado que se afogasse. Seria um a menos. Veja como respondeu a sua ajuda, picando-o a mão, não merece sua compaixão.

O monge com calma e firmeza responde aos discípulos:

-Ele agiu conforme a sua natureza e eu conforme a minha. A natureza dele de agredir não deve interferir na minha natureza de ajudar.

Somos monges e escorpiões todos os dias. Essa parábola sempre me ensinou e me manteve firme durante as montanhas russas que enfrentamos diariamente (que algumas pessoas insistem em chamar de Relacionamentos Interpessoais). Ela diz muito sobre a forma com que equalizamos os ciclos dentro dos nossos relacionamentos com as pessoas e consigo mesmos, deixando claro que não devemos insistir no erro de mudar as pessoas e sim aceitá-las e mudar a forma com que reagimos e absorvemos (ou não) o que nos é apresentado pelo outro e pela gente mesmo. Independente do quanto você queira ajudar alguém, do quanto queira amar ou fazer bem, a natureza de algumas pessoas pica por motivos que independem da relação que vocês tem. Saber ter paciência e fé na caminhada nesses momentos é mais do que fundamental, é humano e nobre. Devemos conhecer nosso limite, descobrir até quando conseguimos aguentar as picadas e seguir tentando colocar a nossa natureza em tudo que fazemos. Sendo escorpiões ou monges somos o que somos, triatletas ou corredores de montanha temos nossas próprias sombras e luz. Façamos delas harmonia para tentar aceitar a vida mais leve. A vida é como ela é, segue seu fluxo, inapelavelmente picando ou salvando. Eu escolhi salvar.

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