Eu acredito que para um bom número de atletas que lê esse site, essa situação vai ser familiar: Você se esforça, tem tempos bons e está crescendo no esporte, consegue boas oportunidades para competir mas quando chega a hora de buscar apoio e patrocínio nas empresas para a sua vida esportiva acaba recebendo vários nãos (isso quando tem retorno), enquanto alguns amigos de assessoria ou de treino estão cheios de apoio treinando de uma forma muito mais confortável as vezes com uma performance igual ou inferior a sua.

Bem, sinto muito, mas muito dessa “culpa” é sua.

Primeiramente precisamos diferenciar aqui o patrocínio da doação, muitos dos atletas que buscam um apoio não tem noção de como funciona uma empresa na sua “intimidade”. Vamos lá… De um jeito bem grosso e direto uma empresa (de varejo, por exemplo) compra um produto de um representante por um preço X, paga imposto nessa compra, põe esse produto na prateleira, aguarda a oportunidade de fechar um negócio, vende esse produto para um consumidor, paga o imposto na saída e precisa tocar o barco com o que sobra na diferença entre o que pagou no produto + os impostos que recolheu + o percentual de custo para manter a loja aberta (água, luz, funcionários, internet, etc…) e o seu lucro. Não é uma conta tão simples.

Quando a maioria dos atletas procura as empresas atrás de patrocínio eles esquecem (ou não tem essa noção) que patrocínio não é doação. Patrocínio é uma troca. É preciso ter em mente de que você precisa oferecer algo que desperte o interesse do seu patrocinador para que ele acredite que te apoiar possa trazer benefícios a sua empresa e assim, juntos, construírem uma parceria de sucesso.

Um exemplo muito bom para entender isso tudo é o futebol: O Caso Ronaldo.

Quando foi anunciada a contratação do fenômeno pelo Corinthians o futebol brasileiro atingia um outro patamar. Eram R$ 400 mil reais de salário mensal (hoje em dia isso ainda é muito dinheiro, imagina naquela época) + 80% da cota de patrocínio das mangas que rendia ao jogador mais R$ 750 mil mensais aproximadamente. Ao todo as cifras ultrapassavam fácil R$ 1 Milhão/mês. Em um panorama como esse Ronaldo passava a ter um faturamento mínimo de R$ 12 milhões de reais por ano o que o tornava um atleta muito caro, certo? ERRADO! Ronaldo era uma pechincha e uma baita estratégia de marketing e faturamento. Um exemplo do porque: a torcida do Corinthians hoje é, se não a maior, uma das maiores do Brasil e conta com aproximadamente 27 milhões de torcedores. Digamos que 5% desses torcedores (chute, meu) compraram em um ano uma camisa 9 do Ronaldo, isso significa 1 milhão e 350 mil pessoas gastando pelo menos R$ 150,00 em uma camisa oficial do clube, o que representa R$ 202.500.000 (DUZENTOS E DOIS MILHOES E QUINHENTOS MIL REAIS). Só em camisa o Corinthians faturava 16 “Ronaldos” bruto por ano, isso sem contar com o aumento significativo das suas cotas de patrocínio (pois todos queriam aliar a sua marca ao craque e automaticamente ao Corinthians), viagens internacionais, mídia indireta no mundo todo pelo fato do jogador trazer com ele um valor altíssimo de prestígio midiático (o que é um ativo muito considerado no esporte), o salto milionário do seu plano de sócios contribuintes mensais e LÁ nas últimas páginas, o ganho técnico/esportivo da contratação.

Onde eu quero chegar com isso? Se NEM RONALDO (o maior que eu vi jogar, ídolo de uma geração) foi contratado única e exclusivamente pelo seu metiê esportivo, porque você acha que isso vai acontecer com você?

Infelizmente eu não conheço nenhum Ronaldo, mas conheço MUITA gente que tem um potencial incrível como atleta e fica abandonado porque não compreende que precisa se reinventar e mostrar as empresas que tem sim algo a dar em troca daquele tão sonhado apoio. Hoje a noite quando chegar do treino pare um pouco e repense algumas coisas, do tipo:

  • Quais são as minhas principais qualidades?
  • O que eu posso oferecer em troca daquele apoio que eu tanto quero (imagem, trabalho, divulgação, indicação de potenciais clientes).
  • O meu diferencial é realmente um diferencial? A minha performance se destaca dentro do meu esporte? A minha participação em eventos é realmente relevante em escala empresarial? A minha rede social é tão legal assim?
  • O que eu posso fazer para ajudar a empresa que quer me ajudar?

Nem as grandes empresas que faturam bilhões e investem milhões de dólares em atletas (Nike, Adidas por exemplo) faz isso por filantropia, essas empresas se degladiam disputando para patrocinar os melhores atletas porque esses caras dominam o consumidor e ao estampar as vitrines das principais lojas do mundo convertem em venda todo o valor neles investido (quem jogou basquete na década de 90 e não quis um Air Jordan que atire a primeira pedra).

Nós atletas amadores podemos sim fazer a diferença para as empresas dentro do nosso círculo de amizades. Na sua grande maioria as empresas que apoiam atletas amadores são de pequeno/médio porte, elas tem um público alvo bem definido e uma logística de funcionamento bem estruturada (afinal, não é nada fácil sobreviver como empresário nesse nosso Brasilzão) o que torna o nosso trabalho muito mais fácil, todo mundo vai querer investir em você se você provar que é uma boa ideia e que pode contribuir de alguma forma, mas precisamos aceitar o fato que hoje, no mercado atual em que nos encontramos, é preciso oferecer a sua contrapartida (e que ela seja realmente relevante). Para um empresário um tênis, um suplemento, uma bicicleta, uma planilha de treinos, uma mensalidade de piscina/academia, um uniforme de competição É DINHEIRO. O fato dele estar te entregando essa peça significa que ele vai deixar de vender (e provavelmente já pagou por ela, em cash), só isso já seria logicamente motivo suficiente para você entender que também precisa fazer a sua parte.

Após os 18 anos de idade, todo presente nesse mundão vem com boleto. Não tem jeito. Resta a você escolher como vai pagar.

Você pode ser um influenciador, pode ser um cara bom de grupo, um trabalhador ativo nas redes sociais ou absurdamente bonito(a) que daria um excelente outdoor a qualquer empresa esportiva, mas se você mesmo não conseguir descobrir essa sua qualidade e oferece-la em troca do apoio que você precisa o caminho vai continuar sendo cada vez mais difícil. Atletas todos nós somos, basta você procurar dentro de você mesmo o que você é além do esporte que pratica se quer receber ajuda além do que hoje recebe.

Andre Raittz

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