Após a notícia da morte de William Solera no último dia 21 não consegui ficar calado.

Eu e William tínhamos a mesma idade, ele era um grande talento da equipe profissional de ciclismo de americana. Já está virando rotina perder nossos talentos nas estradas desse país que pouco se move para se organizar em prol da vida dos nossos atletas. Somos sim a pátria de chuteiras, pentacampeões do mundo de um esporte tão famoso quanto o futebol, porém somos só isso? Ou melhor, PORQUE somos isso tudo? Sera que se as nossas crianças que optam pelo futebol confrontassem o risco de morte toda vez que saem de casa para jogar uma pelada no campinho do bairro assim como as nossas crianças que optam pelo ciclismo/triathlon o fazem teríamos tantos Neymares ou tantos Pelés por aí? Será que se os nossos futuros campeões do ciclismo pudessem treinar em segurança assim como os boleiros nós não teríamos um brasileiro vestindo a camisa amarela do Tour de France ou disputando passada a passada a final da ITU?? Não sei e penso que estou longe de descobrir.

Podemos estar falando de um problema cultural, mas o que vai precisar acontecer para que essa cultura motorizada pare de assassinar nossos atletas? Quando estamos passando por um momento extremo sempre vem essa colocação a cabeça: ‘-Vixx, esse aí nem morrendo toma jeito.’, ‘-Vai ter que começar a morrer gente pra que esses caras façam alguma coisa a respeito disso.’… Pois amigos, nesse momento eu vejo que OU essa expressão é mentirosa OU estamos atrasados na providência pois as mortes embebem nossos jornais de sangue todas as semanas e nenhuma medida preventiva é nem sequer oferecida pelos nossos governantes.

Tomei a liberdade de analisar alguns números, levando em consideração uma cidade como São Paulo por exemplo temos uma frota circulante de mais de 7 MILHÕES de automóveis e pouco mais de 155 mil viagens de bicicleta todos os dias contando atletas e deslocamentos urbanos (fonte: CET/SP). As bicicletas viajantes representam 2,2% do total de veículos nesse caso. Tivemos 201 mortes de motoristas em 2012, se a porcentagem fosse aplicada ipsis litteris levando em consideração o total de bicicletas significa que deveríamos ter 4,02 mortes de ciclistas no mesmo período, na prática esse número difere. Em 2012 foram 51 colegas de treino, crianças, trabalhadores, atletas amadores ou profissionais que perderam a vida SÓ EM SÃO PAULO, 1268% a mais comparado com os acidentes envolvendo veículos automotores. Sad but true.

Só quem opta pelos esportes de endurance sabe o quanto é sacrificante e exaustivo esse tipo de treinamento, nossos ciclistas/triatletas já estão acostumados com a falta de incentivo, com a falta de recursos, com a falta de mídia em um país “uniesportivo” como o Brasil, agora, elevar o nosso nível de dificuldade para o very hard MATANDO nossos atletas que apesar de tudo isso acreditam no esporte e se expõe a todos os riscos nas nossas estradas já é algo que ultrapassa qualquer conceito cultural ou de tradição esportiva. Isso vai além da morte física, isso mata o orgulho, isso mata nossa alma pouco a pouco…

Nosso esporte, principalmente o ciclismo, caminha para a orfandade. É preciso ter em quem se espelhar para desenvolver um bom trabalho, nossos ciclistas não perdem a referência porque carecem de ídolos, perdem a referência porque nos é tirado o privilégio de ver alguém dando show em cima de duas rodas por aí, nos é tomado de assalto a possibilidade de se espelhar no melhor ciclista do pelotão assim como quem priva uma pessoa do seu próprio sonho e eu não posso deixar de enxergar essa situação como imoral e cruel para cada um de nós.

Quem vem vencendo essa guerra até hoje não são os ciclistas que apenas querem o seu lugar, querem ter o seu direito de ir e vir preservado, de poder sair para treinar o esporte que amam sem a dúvida se voltarão ou não para casa, para sua família, para seus filhos, para os seus próprios sonhos. Moramos na esquina da guerra com a paz, nesse fogo cruzado em nome do amor ao esporte arriscamos nossas vidas por algo que julgamos ser maior que nós mesmos. Quem dera.

Quem morre lentamente é o esporte nacional, é o ciclismo nacional, é o triathlon nacional que a cada dia que passa perde mais um guerreiro nas nossas longas estradas da vida.  Façamos desses homens e mulheres nossos ídolos, vamos dar as mãos como quem preserva a própria vida para que no jornal nacional só apareçam camisas amarelas nos nossos ciclistas e não caixões lacrados. Acorda Brasil, nós também somos vocês.

Andre Raittz, 26, mais um sobrevivente.

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