Duas coisas me chamaram a atenção na última semana.

Dois assuntos aparentemente distintos, mas que vou tentar amarrar de alguma forma.

Um link divulgado por uma publicação de triathlon que passou quase desapercebido por todos. Não vi grandes repercussões ou compartilhamentos. Neste link, o ex-triatleta profissional de nome e figura esquisitos, o dinamarquês Torbjørn Sindballe, conta os difíceis dias que precederam sua retirada do cenário.

O cara nasceu com um defeito em uma das vávulas cardiacas e descobriu quase que por acaso, após sentir dor torácica durante um treino de natação. A causa da dor não era cardíaca, mas os exames mostraram que existia uma insuficiência mitral. Condição relativamente comum, mas que um atleta de alto nível em um país de primeiro mundo, foi descobrir tardiamente.

Torbjørn Sindballe

A doença não o impediu de competir, mas eram necessários exames frequentes para monitorar o tamanho do coração e calibre dos vasos. O ano era 2005.

A decisão de parar foi traumática, após um incidente quase fatal em uma prova tradicional de longa distância na Califórnia, o Wildflower, em 2009. Exames após o “quase colapso” mostraram uma hipertrofia do coração e uma dilatação importante da aorta, que não existiam um ano antes.

Problemas cardíacos afastaram outros importantes atletas do nossa esporte: Greg Welsh (das antigas) e mais recentemente Normann Stadler. Ambos passaram por cirurgia cardíaca aberta, um procedimento delicadíssimo com circulação extracorpórea e riscos enormes.

Em alguns casos, como o de Sindballe, a condição teve um fator predisponente, a doença cardíaca congênita, mas que foi agravada pela atividade física de alta intensidade e longa duração, sem a menor sombra de dúvida.

As perguntas que ele faz e discute ao longo do artigo são de extrema importância e serve para TODOS nós:

– É perigoso treinar duro durante 15 a 30 horas semanais, ano após ano?

– É perigoso sujeitar nossos corações a uma competição esportiva que dura 8 a 17 horas?

– Existe risco de morte súbita em condições extremas de esforço físico?

O coração e em especial as doenças congênitas do coração entraram na minha vida há exatos dois anos. Meu filho nasceu com uma cardiopatia leve, mas que em algum momento terá que ser corrigida, sob o risco de morte por arritmia. O mesmo que mata jovens atletas que desconhecem a condição, durante as respectivas atividades.

Antes de responder as perguntas levantas no artigo, entro com o segundo tema deste texto. Aquele que lá em cima eu disse que tentaria amarrar.

Hoje em dia a informação é de facílimo acesso. Até banalizada.

Sem dúvida, é uma evolução e tanto. Por um lado facilita demais a vida, encurta distâncias. Por outro lado, é um problema gravíssimo. Ninguém quer saber fonte, ninguém quer saber se o que está escrito se aplica à você e de que forma isso se aplicaria.

Tem gente escrevendo em sites, blogs, colunas, aparecendo na TV…em todos os lugares. Muitas vezes, as pessoas escrevem com propriedade, com conhecimento, mas…..sem muita lenga lenga, sou contra esses caras que resolvem fazer propaganda dei si  mesmos em qualquer meio. Seja o professor de educação física em quadro de programa dominical, seja ginecologista em programa de saúde da mulher, seja pediatra em programa infantil….e por aí vai. Tem um “que” de charlatanismo na atitude desses caras.

Esses dias, um artigo em um site brasileiro ensinava medidas para se evitar e tratar tendinopatia calcaneana, com uso de antiinflamatório por 5 dias.

Espera um pouco. E a tal anamnese, exame físico?

Hoje acha-se TUDO na internet. E pior, acha-se que pode-se resolver tudo com o que se acha pela internet.

Dos sintomas de dor até planilhas de treinos para ironman.

Esquecemos que somos únicos.

O que serve pra mim, não serve pra você, seja isto uma prescrição de treinos, seja um medicamento.

Por isso eu evito ao máximo de colocar coisas comuns em colunas esportivas em vários sites: “como evitar”, “como fazer”, “como eu faco””.

E desta forma eu amarro os assuntos.

O que adianta eu pegar um treino proposto por um atleta top, facilmente achado pela internet, se eu não tenho certeza se posso fazer ou  e é o momento certo para isso? Até que ponto isso não vai ser prejudicial à minha saúde?

É de extrema importância que nosso esporte seja tratado como ESPORTE e não aquela patacoada de superação lacrimosa que se vê em todo o filme do Ironman do Havaí.

Cercar-se de profissionais sérios, competentes, interessados, atualizados e, principalmente, não acreditar em quase NADA do que se lê na internet.

Apesar disto, acredito como médico que o alerta do texto do atleta dinamarquês é bastante válido e serve para fazer piscar a luz amarela em todos que o cardiologista também deve fazer parte dos nossos treinos….principalmente para os mais treinados.

Sim. Nossos corações podem ser e são afetados por atividades mal feitas, mal prescritas e mal supervisionadas. A tecnologia é aliada. Manter o coração a 180 bpm por muito tempo, não podeser muito saudável…e não é mesmo.

Isso quer dizer que nosso esporte é perigoso?

Na conclusão do Sindballe NÃO e eu concordo com ele. Nenhuma estatística indica que o triathlon (curta ou longa duração) tenha incidências maiores de mortes do que em outros esportes, desde que você tenha supervisão adequada e não caia naquela onda de “Iron wil”l, “never quit”, ignorando ou negligenciando  avisos do corpo ou ainda, treinando acima dos limites recomendáveis para melhorar aqueles 5 minutos que insistem em não cair. Isso pode sim desenvolver ou piorar problemas.

Lembrem-se: O Dr. Google é um PÉSSIMO médico. O Prof. Google pior ainda. Vamos nos cercar de bons profissionais e manter vida longa: a nossa e a do nosso esporte.

O artigo o Sindballe vale a leitura:

http://triathlon.competitor.com/2014/02/insidetri/from-the-heart_93083

Bons treinos.

Daniel Blois

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