Provavelmente os leitores do blog nesse momento, vão se separar em dois grupos lendo esse post:

1- O grupo dos que leram o livro Born to Run e estão pensando “PINOLE, ESSA EU QUERO VER!”.

2- O grupo dos que não leram o livro e estão pensando: “PINOLE??? QUE DIABOS É ISSO?” .

Antes de começar a contar a minha experiência, acho legal explicar pra todo mundo do que se trata o livro e do que se trata o Pinole. O livro Born to Run é do jornalista e escritor Christopher McDougall, um corredor americano frustrado pela sua dor crônica nos pés que descobriu o verdadeiro sentido da corrida (palavras dele) nos desfiladeiros mortais do México, ao ter contato com a tribo dos índios Tarahumaras, o mítico corredor Caballo Blanco e inúmeras histórias sensacionais sobre o universo das maratonas e ultramaratonas.

O grande ultramaratonista Scott Jurek (a esquerda) correndo com um índio Tarahumara pelos Canyons no México.

Scott Jurek (a esquerda) correndo com Arnulfo Quimare (Tarahumara).

Mas o que esses Tarahumaras tem de tão especial? Bem, partindo do pressuposto de que eles em um dia normal correm cerca de 23 a 26km somente para realizar as tarefas do dia a dia já é algo que nos deixa boquiabertos, porém ao saber que eles podem chegar a 70km percorridos por dia quando estão “treinando” para alguma competição,  que podem percorrer mais de 400km em uma única prova, que o seu modo de caçar é perseguindo veados ou outros animais selvagens até que os mesmos caiam de exaustão fazendo tudo isso usando uma sandália fina de borracha amarrada com dois pedaços de pano, é algo que definitivamente nos faz pensar seriamente a respeito da cultura desse povo.

Quando eu tive o meu primeiro contato com o livro do McDougall eu fiquei boquiaberto a cada página que foleava, aquilo era sobre-humano para mim e essa leitura me fez olhar a corrida e os esportes de endurance com outros olhos. Me peguei indo para um treino, carregando quase uma dúzia de parafernalhas para controlar isso e aquilo e tive uma sensação muito ruim de que estava formatando meu treino pelo que dita o mercado publicitário e isso me fez sentir mal por alguns dias. Era hora de tomar uma decisão.

Sandálias Tarahumaras (huaraches).

Sandálias Tarahumaras (huaraches).

Influenciado pelos Tarahumaras e por um conceito de vida que já venho aplicando a algum tempo, decidi ir eliminando do meu dia a dia as coisas que não me eram essenciais, para que quando não me sobrasse praticamente nada eu pudesse escolher tudo de novo, porém com um critério muito mais prático dessa vez e isso tem se mostrado muito eficiente. A substituição da tecnologia tem sido um pouco mais difícil pois gostar dela é uma característica minha desde muito criança (sempre gostei muito de novas tecnologias e dados, não consigo me afastar muito disso), porém saíram os vários tipos de suplementos, entrou uma alimentação mais saudável e balanceada, saíram os tênis de mil amortecimentos e entraram os minimalistas (acompanhados de uma correção na pisada e de um trabalho de reeducação na corrida, o que me evitou lesões e dores durante esse tempo todo), saíram as roupas tecnológicas e entraram os tecidos leves e funcionais. Acredito que hoje, além de ser um atleta melhor, sou muito mais feliz… Enfim, quebrei as correntes.

Mas voltando ao que interessa, vamos falar do Pinole. Para que seja possível que uma máquina ande por centenas de quilômetros sem parar é necessário que se tenha um bom combustível para levar o veículo adiante, digamos que o Pinole é o “combustível” dos Tarahumaras. Uma comida simples com ingredientes simples, porém quando combinados produzem uma grande fonte de energia para os praticamente de atividades físicas e no caso dos índios é praticamente a única coisa que eles comem durante uma longa corrida ou uma prova. Conversando com amigos que também leram o livro, fomos pensando e amadurecendo a ideia de que o pinole pode realmente ser uma boa fonte de energia e que valeria a pena tentar fazer, é claro que existe uma diferença abissal entre o que faz bem e funciona para nós e o que faz bem e funciona para os tarahumaras, visto que entre nós existem milhares de anos de imperialismo capitalista e dietas completamente diferentes, porém o conceito continua sendo o mesmo e a tentativa poderia somar, no mínimo, como uma experiência de interação cultural.

Ingredientes

Ingredientes

Baseado no livro, procurei algumas receitas na internet e tentei deixá-la o mais original possível (com o sucesso do livro, já tem gente vendendo a ideia de acrescentar chocolate ou frutas cristalizadas, para mim isso é um absurdo) e cheguei a uma receita fácil e simples, assim como é a própria receita tarahumara. Ela é mais ou menos assim:

  • 1/2 xícara de farinha de milho (fubá), o mais fino possível. (o mais original seria Masa Harina no lugar da farinha de milho, porém pela dificuldade de encontrar isso no Brasil, vai fubá mesmo).
  • 1/2 colher de canela em pó.
  • 1 colher de sopa de açúcar mascavo ou mel.
  • Sementes de Chia (opcional).

Para fazer é bem simples, dê uma tostadinha no fubá em uma frigideira média, em fogo médio, até a cor passar do amarelo para um marrom (Figura 1). Após fazer isso, reserve em uma tigela e misture a canela, o açúcar (ou o mel), a chia e vá acrescentando o quanto de água desejar. Você pode colocar um monte de água e fazer uma bebida de pinole, porém todo mundo que fez isso falou que parece estranho porque o milho não se dissolve (eu particularmente não tentei, mas fica livre)… Ou você pode adicionar só algumas colheres de água (coisa pouca mesmo, 6 a 8 colheres) e misturar bem, o que vai dar uma consistência mais grossa para o pinole (figura 2), ficando assim mais fácil de carregar para uma corrida aonde você vai poder comer tanto com uma colher quanto com a mão. Você também pode pegar essa mistura e assar em um forno convencional por 17 minutos a 290ºC, até que o pinole ganhe a textura de um biscoito (a figura 3 mostra como eu montei na forminha para ir ao forno), o que também facilita MUITO o transporte e a ingestão.

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(Figura 1) (Figura 2)

Txtura pré-forno (Figura 3)

Textura pré-forno (Figura 3)

Lendo por aí e analisando a estrutura alimentar dos ingredientes eu acredito que essa comida seja uma boa tanto para ser ingerida durante as corridas quanto depois delas. A chia tem um papel fundamental na produção de energia e se estiver aliada a todo o resto ali, acredito que seja uma ótima e saudável opção para os longões de fim de semana. Ainda estou tentando incluir o pinole com mais intensidade na minha rotina, porém a princípio é assim que vai funcionar. Escrevi aqui a receita igualzinha eu fiz PORÉM eu tenho umas dicas a quem quiser tentar: se você tostar demais o Fubá o gosto fica um pouco forte por isso indico acrescentar dois tipos de “doce” a receita, uma combinação perfeita seria açúcar mascavo + mel pois fica muito gostoso, caso você opte por assar é legal ter um recipiente bem fechado para guardar pois ele esfarela bastante. Queria repartir a experiência pois me diverti muito adaptando minha vida e meu estilo de treino aos corredores mais “cascudos” do planeta. Se alguém for fazer em casa deixe um comentário depois contando como foi, vai ser bem divertido.

Pinole

Pinole do VidaDeTriatleta.Com

O meu ficou assim e o seu?? =))

Andre Raittz.