Lições de uma Saga – Superbike

Tenho bastante orgulho em dizer que minha história com o triathlon começou há quase duas décadas. Primeiro boom do esporte por aqui. Provas lotadas, preços bastante razoáveis.

Não dá pra negar que um dos fascínios desse esporte é o material, principalmente as magrelas. Podem atirar as pedras, mas acho que é assim desde sempre.

Quando comecei, não tínhamos muitas opções. Usava uma Caloi de cromo, que pesava uns 20 Kg. Botei um clip nela e me achava.Caiobá 96

O ditado que “a grama do vizinho é sempre mais verde” é mais verdadeiro em uma área de transição de provas de triathlon. Se você tem uma Caloi, pode ter certeza que seu queixo vai despencar.

Assim nasceu a vontade de ter uma superbike. E antes de joguem mais pedras (o que é difícil se quem estiver lendo for triatleta, mas enfim…), vamos colocar de outra forma: se você tem um carro qualquer e passa uma Ferrari. Qual a reação? A minha é de abrir o vidro, desligar o rádio, ouvir a música do motor e sonhar…em ter uma, claro. Nessa mesma linha, podemos criar inúmeros exemplos.

O problema é que em 20 anos, o conceito de superbike mudou um tanto. O preço não chega a ser de uma Ferrari…mas olha, tem muitas que não ficam TÃO longe assim.

Ao longo do tempo, fui adiando o sonho porque algumas coisas prioritárias como casamento, filhos, entre outras coisa, foram acontecendo no meio do caminho.

Quando decidi que era a hora, a saga começou.

Estava decidido a comprar uma, quando que quase como um chamamento, uma marca canadense fez o lançamento de uma nave espacial em janeiro de 2012. Fiquei enlouquecido e sem ligar nem um pouco pra razão, mandei um email pro cara que representa a marca aqui no Brasil e encomendei. Depois fui perguntar o preço. Quase caí pra trás.

A bike estava sendo produzida. Não tinha nenhuma pra comercializar. O que significava que a espera poderia ser de uns 3 ou 4 meses. Perto do fim do prazo, vendi minha bike pra ajudar “no caixa”. Primeiro atraso. Entrega postergada mais 2 meses, para junho ou julho.

A explicação oficial era que os tamanhos com maior saída eram produzidos primeiro. Por último, os com menos saída. Meu caso.

O tempo passava e nada de bike. Em novembro, 11 meses depois, desisti bastante decepcionado.

Comprei uma outra pra continuar a fazer provas com bike de triathlon. Até tinha desistido de ter uma superbike.

Mas essas vontades não desistem de você assim tão fácil. Do nada, a vontade voltou.

Pesquisei, namorei vários modelos e decidi. Outra canadense.

Comprei numa famosa loja americana e a vendedora, que fazia a propaganda que mandava bike pro Brasil toda semana, me disse que poderia fazer uma nota com valor menor pra pagar menos imposto. Olhei pra tela do computador desconfiado e já pensei “vai dar m%ˆˆ*”.

E deu.

A bike ficou retida 1 mês na alfândega. Mandei documentos e até uma carta de patrocínio da loja, justificando a diferença de preço. Não adiantou. Na maioria dos casos de inconsistência de valores declarados, o produto é revalorado e paga-se a taxa em cima desse valor, com multa. No meu caso, devolveram a bike pro remetente e não teria como mandar novamente pra cá, pois não seria possível entrar com o meu CPF.

Um amigo que mora em Boston trouxe a caixa debaixo do braço. Paguei o valor integral da nota fiscal e quase 9 meses depois da compra, tive minha superbike. Segunda gestação. Mas essa pariu!

Nela acrescentei alguns acessórios, entre eles, um medidor de potência.

Passados alguns meses de uso e uma prova, chego à seguinte conclusão:

Não é porque tenho uma Ferrari, que vou andar a 300km/h. Meu ego vai estar muito satisfeito, sem dúvida, mas principalmente no trânsito das grandes cidades, vai fazer o mesmo que um carro popular, com muito mais chance de você ser alvo da “cobiça alheia”.

A superbike não me fez voar. Não abaixei tempos ainda. Claro que preciso mais tempo com ela. Não é tão dócil como bikes mais “versáteis”.

Os anos, além de proporcionarem substrato para a compra de brinquedinhos caros, trazem bagagem. Se fosse hoje, economizaria uma boa grana comprando uma bike mais “tranquila” (leia-se mais barata), mas nunca mais vou deixar de ter um medidor de potência. Este sim, um brinquedinho que faz você evoluir e perceber a evolução…em qualquer bike que esteja montado, mesmo fazendo muitas sessões em rolo estacionário. Te dá ( e ao seu treinador) parâmetros objetivos de avaliação e te denuncia se você não cumpre o que foi estabelecido. Com sol, chuva, subida, decida, vento a favor ou contra.

Pensem bem antes de se renderem às tentações do ego.

Mas sempre vai existir o diabinho em cima do seu ombro direito dizendo que pilotar uma bike top, sempre vai ser muito divertido, mesmo que você nunca chegue perto de tudo o que ela tem a oferecer.

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E não é que ele tem mesmo razão?

Bons treinos.

Daniel Blois

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