Powerman Brasil - Race Report Camelbak
Percurso RápidoNível Alto
Detalhes de estréia
72%Valor Total
Percurso87%
Segurança84%
Organização71%
Visual53%
Kit74%
Custo60%
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Desde o primeiro anúncio da chegada do Powerman Brasil, nós aqui do Vida de Triatleta tínhamos a certeza que essa seria uma prova para mudar o calendário dos brasileiros. A promessa de uma grande franquia mundial trazendo uma etapa internacional de Duathlon para o Brasil só aumentava a expectativa sobre a prova que confirmou e afirmou tudo o que esperávamos no dia mais maluco do ano em Florianópolis. Sem mais rodeios, põe o cinto que esse Race Report vai ser completo!

Pré-Prova e Burocracias

Pode-se dizer que o Vida de Triatleta esteve presente no Powerman Brasil desde bem antes do dia 27 de Setembro de 2015. Em parceria com a Agência E2X estivemos envolvidos com a divulgação da prova e acompanhamos de perto todo o desenrolar burocrático para que uma prova desse porte pudesse desembarcar em Floripa. Foram muitas questões a serem resolvidas como a cidade sede (pois é preciso encaixar dentro do planejamento dos municípios além de agenda toda a questão de estrutura e logística), organização, o padrão internacional que a E2X fazia questão de implemantar na prova afim de oferecer aos atletas mais uma opção de prova de alto nível sem que fosse preciso viajar para o exterior, enfim… Uma série de fatores que arduamente o pessoal lutou para conquistar e acabou se tornando realidade naquele final de semana chuvoso em Florianópolis. Mas vamos ao que interessa, como foi o Powerman Brasil segundo nosso atleta Andre Raittz:

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O Powerman Brasil para mim teve início no começo do ano, fiz uma preparação muito intensa junto ao meu treinador Bruno Calvetti para o Campeonato Brasileiro de Triathlon que acabou não virando por motivos de força maior o que acabou mexendo comigo de uma forma mais forte do que eu esperava. Ao voltar aos treinos visando a Uphill Marathon tive uma série de lesões (3 no total) sendo que a última delas me afetou bastante, a tão temida Síndrome da Banda Iliotibial. Tenho muita sorte de contar com um grande amigo e fisioterapeuta, Cid Araújo, que me ajudou nesses meses turbulentos até a prova, sabíamos que não haveria a possibilidade de curar a inflamação até a competição porque ela exigia repouso e os treinos para a prova seguiam intensos então nos planejamos para ir aliviando os sintomas e fazer um trabalho de “contenção” até a competição. Não tinha outro jeito, essa ia ter que sair na raça.

Treinei o que dava pra treinar, sabia que não era o suficiente então foquei em deixar TODO o resto perfeito, dieta, equipamentos, hidratação, estratégia de prova, cabeça, suplementação… De alguma forma aquela prova havia se tornado especial para mim e eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance para ir bem, era uma questão quase que emocional já. Tive ajuda de muita gente durante esses 2 meses de preparação, dentre essas pessoas pude contar com um grande amigo e grande atleta Hermes Schneider que topou na hora a maluquisse de embarcar nessa comigo e foi um verdadeiro irmão em todo o processo prático do Powerman, carregamos as magrelas no carro na sexta após o trabalho, apertamos o cinto da Maria (filhinha do Hermes que essas horas já estava capotada na cadeirinha) e rumamos em direção a meca do triathlon nacional. Chegando em Floripa a 1h da manhã, batemos na casa da Renata e do Jason para pegar a chave do AP (desculpa mais uma vez galera!) e fomos descansar porque os próximos dias seriam intensos.

Acordamos cedo e fomos para a Expo/Congresso Técnico, uma chuva intensa e contínua molhava a ilha cada vez mais e seria importante saber exatamente o que aconteceria durante a prova. Uma expo simples porém MUITO bacana com vários itens legais e tudo que o atleta precisa estava montada para recepcionar o pessoal no centro de convenções da Jurerê Sport Center, lá fora uma estrutura super bacana com totens, food trucks e bandeiras. O clima já estava armado e bateu aquela sensação de “agora não tem mais jeito, vamos pra cima”. Rumamos para a retirada do Kit que foi um dos diferenciais da prova, uma retirada simples e rápida surpreendeu os atletas e no kit o material oficial da prova todo desenvolvido pela Track n Field, um toque de qualidade a mais que fez toda a diferença! Passamos na praia pra pequena curtir um pouco e voltamos para acertar os últimos detalhes da  bike, fazer os últimos testes e dar baixa na magrela lá na área de transição.

 

Processed with VSCOcam with f2 presetApós testar tudo e mais um pouco, colar a alimentação na bike e separar tudo que ficaria na área de transição, carregamos a preta no carro e nos mandamos para o local do evento mais uma vez. A chuva continuava insistente e muitos atletas já se encontravam preocupados. A área destinada para as bicicletas era ao ar livre (como é em 99% das provas de Duathlon/Triathlon) porém o fato de deixar a bike uma noite toda pegando chuva me preocupou um pouco. Perguntei ao staff da prova se havia algum tipo de proteção para as bikes e fui informado que elas estavam sendo vendidas na Expo, sem pensar duas vezes voltei ao salão para comprar a minha (pagando R$ 15,00 por uma capa de plástico na oficina oficial da expo¬¬) para assegurar que a bike manteria a lubrificação até o horário da largada. Confesso que doeu na alma ver uma série de bikes de 15, 20 mil reais pegando chuva daquele jeito, uma coisa a se pensar para as próximas edições.

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A capa polêmica. (Foto: Dalalana/Mundo Tri)

A área da transição estava situada em cima de um gramado muito bonito (como é tradição já nas provas de Powerman, inclusive no mundial da modalidade em Zofingen) mas ordinário. Não foi pouca chuva que caiu em Floripa naqueles dois dias e isso transformou aquele lindo lugar em um banhado chique, por pouco o X-Terra não entrou de sócio no Powerman Brasil. Deixei a magrela lá dormindo e vim pra casa, era quase hora de fazer minha última refeição, tomar meu último litro de água e colocar as pernas pra cima. O dia seguinte seria cheio e eu precisava colocar a cabeça no lugar, tive MUITA sorte de contar com o Hermes, a Kelly e a pequena Maria nesse dia porque muita coisa que aconteceu recentemente e que mexeu muito comigo estava começando a me balançar, o ideal a fazer era dormir de uma vez para que a prova chegasse logo.

 

Foto 27-09-15 06 35 23Acordamos as 5h e adivinhem? A chuva não tinha parado nem um minuto sequer! Resolvi desbaratinar, fazer a minha alimentação e encarar a manhã como se nada disso estivesse acontecendo. Chegamos na área de transição para os últimos ajustes na bike as 6:10h e eu percebi que por causa do clip da bike a capa havia formado uma espécie de mini piscina, acumulando água e descobrindo o meu cassete, fazendo com que ele e o câmbio ficassem a noite toda na chuva (sabia que aquela capa não ia ajudar tanto haha) mas faz parte do show e encarei com tranquilidade porque aquela estava sendo uma prova completamente imprevisível, o jeito era lidar com os imprevistos assim como a organização estava fazendo pra tentar manter a prova em pé. Encontrei o Cid para colocar as últimas bandagens antes da prova afim de tentar atrasar ao máximo a dor no joelho e segui para o meu aquecimento, no caminho encontrei a Paty da E2x que estava exausta, ela me contou que estavam desde as 4h da manhã negociando com a Polícia Militar e com a Fetrisc para que a prova não fosse cancelada, estavam balizando mais ainda o percurso e naquele momento haviam recebido o OK para a largada. Tratei de engolir um gel e ir fazer os últimos educativos  antes da buzina tocar, a próximas 3h não seriam nada fáceis. Uma das coisas legais foi a presença de John Raadschelders, presidente da franquia Powerman que a todo tempo andava no meio da galera, tentando interagir em português e tomando chuva igual todos nós, grande figura que renderia altos papos mais tarde.

EKG15PWMB10187Finalmente é dada a largada, todo o esforço e sofrimentos dos últimos 2 meses estariam na mesa e era chegada a hora de fazer tudo valer a pena. O ideal para quem busca performance em provas de Duathlon é sempre fazer a primeira perna mais forte para se manter no grupo da frente, pedalar forte e sobreviver junto na última perna de corrida mas devido aos últimos acontecimentos tive que fazer uma estratégia um pouco diferente, a ideia era fazer uma primeira perna bem conservadora focando muito na técnica para sobreviver sem dor, arroxar no pedal o quanto desse pra tirar a diferença e correr com o que sobrasse na última… E foi mais ou menos assim que rolou.

Sai tranquilo na primeira perna, respirando bem e correndo bem solto, fechei os 10k abaixo de muita chuva e ruas alagadas por toda Jurerê na casa dos 46′ e dos 150 batimentos. O percurso tinha 2 pontos de hidratação por volta, era plano e cheio de retas, excelente para evoluir bem, estava super bem sinalizado e cheio de staffs por todos os lados. Ao chegar na transição o que eu já imaginava se tornou realidade, o atoleiro estava sinistro porque algumas pessoas já haviam chegado e pisoteado, hora de concentrar e fazer o que precisava ser feito. Devido a uma logística super bem bolada pela organização ficava fácil chegar e sair da área de transição e todos os atletas conseguiram fazer a troca das modalidades sem sustos. Errei absolutamente TODOS os laps no garmin, mas ta valendo.

 

BUR15PMANBR00982Saímos para pedalar e foi nessa hora que a tensão tomou conta. Eu sabia que eu precisava fazer um pedal forte para voltar a brigar por alguma coisa mas as condições da rodovia inviabilizavam um ciclismo intenso naquele momento pois não havia a menor possibilidade de distinguir buracos de poças d’água. O percurso estava seguro porém o forte vento que incidia no local obrigava os ciclistas a trabalhar em duas velocidades muito diferentes, no mesmo trecho não era raro perceber o Garmin mostrando 55 km/h na ida e 29 km/h na volta. Resolvi apostar e apertar o ritmo, sabia que era arriscado porém na hora pareceu a coisa certa a se fazer, realizei umas 35 ultrapassagens logo na primeira volta até me dar conta que havia esquecido TODA a minha hidratação da bike na mochila, com paciência fui me estruturando psicologicamente novamente e toquei o barco ritmando e tentando me encontrar na prova.

A altimetria engana um pouco, é possível fazer o ciclismo todo com bastante intensidade sem se preocupar muito com as subidas, elas existem mas são completamente contornáveis e administráveis até no clip. Como estava super perdido sobre a minha média de potência (pois optei por largar de disco e o meu medidor de potência está na roda de treino) segui mantendo a pressão nos pedais sob a forte chuva e o forte vento que judiava os ciclistas, sabia que o pessoal da elite (nisso incluo os amadores de elite também) estavam BEM a frente e eu havia conseguido seguir com um bloco legal de atletas, o pedal tinha sido bom e dadas as devidas circunstâncias tudo tinha dado certo com um deslocamento médio de 35 km/h de média (descontados os laps errados). Curiosamente os batimentos cardíacos também não subiram, provavelmente pelo fato de ter muito acelera e freia  devido aos buracos, retornos, vento, etc… Ainda estou tentando entender o que aconteceu, a sensação foi de um esforço maior.

Cenário de guerra na T2

Cenário de guerra na T2

Chegando na T2 o cenário era o mesmo, bastante barro e lama mas a chuva devagarinho começava a aliviar, fiz uma transição rápida e saí para os últimos 10k me sentindo bem, fadigado mas bem.

 

2015.09.27_powerman_brasil_florianopolis-EKG15PWMB13985É chegado o momento mais delicado da prova, o percurso já havia escoado e só restava correr mais 10k para fechar a conta, eu sabia que a qualquer hora a pancada estava por vir. Saí ritmando afim de tentar me encontrar na corrida (pois convivendo com o meu corpo machucado nos últimos dois meses sabia que se forçasse em uma intensidade maior ele poderia travar e aí o negócio ia ficar feio), fechei o primeiro km para um 4:50 bem tranquilo antes da dorzinha chegar. A danada chegou de mansinho e ia aumentando até ficar insuportável a ponto de ter que parar, alongar e ficar um pouco com o pé longe do chão. Mais um vez me reorganizei psicologicamente e fui lidando com o que se apresentava para mim. Fechei a primeira volta muito mal, parando bastante e decidi que a próxima vez que a dor chegasse iria dar um tiro forte (perto de 4:00) para ver o que aconteceria, se eu aguentasse o rojão seguiria no ritmo até fechar, se não aguentasse seguiria andando e mancando mesmo porque a corrida já tinha ido pro saco. Não deu outra, alguns metros para frente a dor voltou e eu dei o tal tirão sentindo um estalo forte no joelho acompanhado de um “calor” e um amortecimento na região, sem pensar duas vezes resolvi aumentar o ritmo porque sabia que quando parasse iria pagar caro e inesperadamente a minha corrida encaixou.

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Final de corrida emocionante no Powerman Brasil

O ritmo foi ficando melhor a cada km, já conseguia manter uma postura bem melhor e voltei a me sentir vivo na prova, passei por um expectador mais velho com uma camisa de finisher do Ironman Brasil que me grita: “Segue firme garoto! Ta correndo bem, a sua postura é a melhor que passou por aqui nessa volta!”, confesso que isso me deu um puta de um gás para ficar firme até o final. Infelizmente haviam apenas 4km para percorrer e a diferença no meu tempo final não foi muita mas serviu muito para aproveitar o resto da prova, me sentir bem e curtir aquele momento que me custou tantas horas de vida, tanto esforço nos treinamentos e tanta disciplina. Eu estava a poucos km da chegada do Powerman Brasil e aquilo foi realmente muito especial. Muitas coisas passam pela cabeça nesse momento, o convite mais que especial do pessoal da E2x que fez com que tudo aquilo fosse possível, minha família, meu velho, meus grandes amigos que fizeram parte dessa jornada dura e aguentaram as minhas chatisses, enfim, um momento especial que enfiou um cisco no meu olho que só saiu pouco antes da chegada. Naquele momento, com lesão ou sem lesão, com chuva ou sem chuva, com água ou água, eu provava para mim mesmo que a vida tem sim muitos altos e baixos, situações de imprevisto, mas perseverança é a chave, resiliência é a palavra que mais enraizou na minha cabeça desde aquele momento.

Fechei a última corrida com grandes 50′ porém nada disso alterou a minha felicidade de ter chego até ali. Foram 3 horas, 27 minutos e 48 segundos de muita, mas MUITA coisa na cabeça e no coração e uma sensação linda de que ano que vem, sem dor e sem dilúvio (esperamos todos rsrs) posso voltar pra ilha e fazer uma grande prova! Se a primeira já foi tão especial, imagina a segunda. Obrigado Powerman Brasil.

(Para os viciados em números, aqui está o Garmin da Prova)

O Powerman Brasil foi um sucesso, isso precisa ficar bem claro. Quando se tem uma série de imprevistos tão complicados como os que aconteceram nesse final de semana lá em Florianópolis, fica difícil de enxergar as coisas como elas poderiam ter sido e passa-se a avaliar o que se tem nas mãos, é natural do ser humano, mas o que a organização fez para manter a prova funcional e com a qualidade que o evento merecia foi uma grandeza e só quem acompanhou de perto sabe o quanto aquele pessoal ralou nos 5 dias que antecederam o 10/60/10. Definitivamente essa é mais uma das grandes provas que chegaram no Brasil para ficar e a sua dinâmica (com duas corridas iguais e um pedal de média distância no meio) torna a prova ainda mais especial. Com certeza se novamente nos for oferecida a oportunidade estaremos lá no ano que vem para prestigiar a segunda edição da prova que promete ser melhor ainda!

Não posso terminar essa postagem sem um parágrafo de agradecimento, é até um pouco injusto da minha parte citar nomes aqui porque tive muitas pessoas envolvidas nessa jornada, me perdoem caso não cite o nome de alguém, a cabeça falha mas o coração não. Muito obrigado ao Cid Araújo, meu amigo e fisioterapeuta que foi um dos grandes responsáveis por eu ter conseguido largar e chegar nessa prova, se não fosse por você meu caro nada disso teria acontecido eu tenho certeza, muito obrigado. Ao meu treinador Bruno Calvetti que aguenta minhas reclamações, responde as minhas dúvidas absurdas e tem que lidar com o fato de eu as vezes não fazer exatamente o que ele manda, talvez um dos grandes motivos da minha lesão foi não ter obedecido a planilha que ele me fez mas definitivamente o principal motivo de eu ter conseguido chegar bem lá foi a estrutura de treinos que juntos construímos desde o ano passado e que me segurou nesses momentos de tensão, obrigado professor. Ao meu amigo Hermes Schneider por ser o grande irmão que ele é e me ajudar tanto nas entrelinhas. Meus parceiros de treino principalmente ao parceiro, vizinho e companheiro Lauro pelas conversas e pela força de sempre, valeu pablito! A família Neri, em especial a Rê e o Jason que nos receberam de braços abertos lá em Jurerê como sempre, muito amor por vocês, estamos esperando a família em Curitiba! Aos amigos, colegas, companheiros de estrada, família, que não aguentavam mais ouvir falar em Powerman Brasil haha, assim como os parceiros de fisioterapia. Turco pelas dicas, Alex Montanha e Fagner Amaral pelo trato na magrela e pelas rodas, vocês fazem a diferença sempre rapaziada, é um prazer enorme e muita sorte contar com vocês, muito obrigado. Ao pessoal da montanha que me deu uma força gigante no momento que eu mais precisava, me recebeu de braços abertos desde sempre e hoje são pessoas mais do que especiais. A Agência E2x pela oportunidade.  Aos meus parceiros/patrocinadores: WEBTREINO, NUTRISHAPE, CAMELBAK, ULTRATATTOO, TRIBO ESPORTE pela força e pela confiança mesmo em momentos de turbulência! MEU MUITO OBRIGADO!

Esse foi o Powerman Brasil, ano que vem tem mais!

Dedicado ao meu pai, meu velho pai. Te amo.

Andre Raittz