Já tinha o relato da prova quase pronto na cabeça, porém quando cheguei a São Paulo, vi um post no Facebook da organização da prova, lamentando a morte um atleta após sua chegada.

Tiago Pereira, que hoje completaria 29 anos sofreu um choque elétrico brutal que o deixou grudado à estrutura. Quem viu ficou estarrecido. As informações são muito desencontradas. Primeiro disseram que foi na tenda da expo (onde a área de dispersão dos atletas foi organizada). Outros relatos dão conta que foi em um dos pórticos depois da chegada, que orientava o fluxo dos atletas para receberem as medalhas e camisetas e por onde milhares de metros de fios se estendiam para iluminação e som da prova.

Não conhecia o Tiago, mas sei o que ele passou durante a prova. Terminamos com pouco tempo de diferença. Sei da dedicação dele, pois ninguém encara 5 ou 6 horas de prova, se não houver dedicação e entrega no dia-a-dia. Sei do sofrimento da família, pois ninguém espera que uma coisa dessas aconteça num momento feliz, num momento de celebração.

 

Fiquei abalado, confesso.

 

Muitas manifestações indignadas se seguiram. A Latin Sports soltou uma nota dizendo que a montagem da estrutura era de responsabilidade de uma empresa terceirizada, quase se eximindo de responsabilidades. Não é bem assim, não é? Os acontecimentos terão que ser apurados. Por enquanto só existem especulações sobre omissão da Latin Sports em relação à montagem das estruturas e falta de atendimento adequado, sem pessoal e equipamentos mínimos para encarar ocorrências deste porte. Mas a realidade é que nada vai trazer o cara de volta.

Vamos tentar resumir o que tinha preparado sobre a prova.

Ela acontece no Pontão do Lago Sul. Um braço do Lago Paranoá com uma estrutura de restaurantes e marinas. Expo e entrega de kits no padrão das outras provas da franquia que já tive a oportunidade de fazer. Achei até que tinham poucos expositores.

Pra mim, a novidade deste ano, foi a pintura do corpo junto com o check in da bike e sacolas. E não era a caneta, mas com um adesivo semelhante aos que vemos no Mundial em Kona. E sim…pode tomar banho que não sai…Aliás, não saiu até agora.

Achei muito pouca coisa sobre a prova de 2013 pra tentar traçar um plano de voo. Por isso vou tentar falar mais sobre a prova e menos sobre o meu desempenho. O problema é que a minha percepção da prova está diretamente ligada ao meu desempenho.

Antes de mais nada, e pra satisfazer a curiosidade de todos que adoram números para comparação, na eterna busca pelo posto de macho-alfa, fiz em 5:29’10”. Muito sofrido. Esperava quase meia hora a menos, mas foi o que deu. Fiz minha parte, tô todo dolorido e isso é o que vale.

A prova é dura. Põe dura nisso.

Natação retangular, com 4 bóias em sentido anti-horário, largada com todos dentro da água. Nunca tinha largado assim e também nunca tinha visto tanta gente subindo uma em cima da outra, batendo, puxando. Fico na duvida de quantos choques foram involuntários e quantos foram intencionais. Parecia largada da São SIlvestre: encaixotado, sem condições de nadar no meu ritmo, pois se dois ou três à sua frente estava mais lentos, não havia meios de sair e buscar outro lugar sem ser atropelado, esbofeteado.

O sol nasce bem na direção da primeira bóia. Difícil se orientar. Depois de dobrar a primeira esquerda, as coisas ficavam mais tranquilas. Não senti correnteza. Era um braço de lago, mas o vento agita a superfície. Tinha bastante ondulação. Água escura, sem gosto de…bom…de nada não parecido com água.

Outra dificuldade era a saída do lago. Uma rampa de madeira revestida com um material de borracha liso igual quiabo. Foi muito engraçado. Muita gente, assim como eu, deve ter tentado umas 3 vezes até conseguir.

Transição tranquila. Tenda cheia. Mas como sou macaco “meio velho”” nada de encher as sacolas com um monte de coisas que você não vai usar e vão te atrapalhar na hora que falta sangue no cérebro e você ainda tá balançando com as ondas da natação (portanto, listinhas de sites “especializados””..esqueça). Só capacete e óculos.

O bike me assustava um pouco. Não conhecia Brasília, mas não sei o motivo, imaginava uma cidade plana. Ledo engano. A única parte plana da cidade toda é a esplanada dos ministérios…e deve ter sido planada. A cidade é um sobre e desce infinito. Sem contar que as previsões davam conta de ventos de 20km/h com rajadas de até 35 km/h para as 9 horas da manhã.

O início já era uma longa subida, depois entra numa parte mais nivelada até seguir em direção à ponte JK, com uma longa descida. O retorno após a ponte era bem chatinho. Bem inclinado. Tenho certeza que a inclinação era “variável” e a cada volta, alguém ia lá e aumentava 1 ou 2º. Na ultima volta esse retorno parecia intransponível. Como não decorei todos os nomes das vias, fica o relato que a prova acompanhava a tendência do relevo da cidade…morros acima e abaixo…e trechos de falso plano.

O temido vento apertou mesmo na segunda volta. O lado bom é que quando soprava “de cauda”, ia que era uma maravilha.

O meu ponto alto do pedal foi por volta do KM 60, perto do fim da segunda volta. Num trecho com declive leve e vento a favor, estava a 45km/h. Uma moto da organização passou e achei que era da arbitragem. 5 segundos depois, passa um cavalo com o barulho da roda fechada, parecendo um trem bala: Igor Amorelli. O grupo que perseguia, com Santiago Ascenço, o Tim Dom e o O’Donnel um pouco mais atrás, só foi passar muitos minutos depois. Sensacional. E eu quebrado. O ciclismo com 3 voltas matou o psicológico. Poderia ter sido só 2 de 45Km.

Quando cheguei na T2, a quantidade de gente na ponte Costa e Silva, que dá acesso ao Pontão, já era pequeno. Estava todo mundo do outro lado, já na parte da corrida.

De novo, tranquilo. É importante memorizar exatamente onde suas sacolas estão, pra não perder tempo tentando achar. E de novo, sem coisas que não vai usar dentro delas. No meu caso, par de tênis, meia, boné e gel. Só isso.

Estava quente. Disseram que menos que no ano passado, mas este ano a umidade estava altíssima pro padrão do cerrado brasileiro. Beirava os 80%.

Depois de um trecho em declive leve, a primeira subida. Já pensei: essa subida vai dar trabalho. Acho que era mais um caso de subida com elevação manualmente controlada. Ela ficou uma montanha na terceira volta. Depois a prova seguia para ruas residenciais e entrava dentro de um parque que beira o lago Paranoá. As vias dentro do parque são estreitas e mal dava para ultrapassar algum atleta mais lento. resultado: muita quebra de ritmo. De novo, o fato de serem 3 voltas foi muito ruim. No final da primeira, não conseguia manter um ritmo uniforme. Entrei numa batalha: ora a cabeça mandava parar e o corpo desobedecia, ora o corpo implorava e a mente não deixava. Até que na terceira volta, naquela subida que aumentava a inclinação manualmente, eu cedi. Andei. Aí, eu desisti de tempo, de relógio. Só queria acabar logo…mas se andasse, iria demorar mais. Foram quase 8 Km assim,  muito sofrido.

Mas a espectativa do pórtico de chegada dá aquela renovada.

Como eu falei, impossível dissociar as impressões sobre a prova e o meu desempenho. A prova é dura. Mas tem uns cavalos que terminam sub-4, outros sub-5. Eu sofri muito. Pra quem não se intimida muito com subidas e muito calor, é uma boa prova.

Erros da organização? Sim, muitos.

– Largada de dentro da água com 1200 atletas é muito complicado.

– Vácuo no pedal não presenciei, mas deve ter tido. Como existem muitas subidas, isso é amenizado.

– Faltou água em um dos postos com menos de 5 horas de prova.

– Não vou considerar o furto de uma bike de dentro de um carro no estacionamento do Pontal, uma falha da organização. Na entrada existe um cartaz onde se lia que a administração do Pontal não se responsabilizava por objetos dentro dos carros. é Um problema urbano, de administração pública. A organização fez a parte dela e garantiu a segurança das bicicletas a partir do momento que elas foram entregues na área de transição.

Acredito porém que o principal erro da organização foi a omissão sobre a responsabilidade no caso do Tiago, como se ela, Latin Sports não tivesse a obrigação de supervisionar e obrigar um padrão qualidade mínimo para os prestadores de serviços contratados por ela.

Fico muito triste, porque ele não teve a chance chegar em casa e ganhar o carinho da família como felizmente eu ganhei quando cheguei, que vale muito mais do que qualquer medalha, que qualquer tempo de conclusão de priva, por mais fenomenal que seja.

Não sou um cara religioso, portanto, só posso desejar à família uma dose extra de coragem e força. Que o exemplo dele permaneça vivo.

Que venha o próximo desafio.

Daniel Blois

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