Falamos bastante sobre o Mountain Do Lagoa nas últimas semanas, agora chegou a hora de contar como foi a nossa experiência por lá nos dias 07, 08 e 09 de Outubro em Florianópolis.

Saímos na sexta feira por volta das 11h de Curitiba rumo a Florianópolis, o trânsito nesse trecho costuma ser muito complicado com atraso de horas na viagem as vezes devido a acidentes ou obras na pista. Pegamos uma ou outra fila mas no final chegamos em um horário super aceitável, por isso recomendamos a todos que sempre prestem atenção nesse quesito pois para um corredor que vai enfrentar uma ultra no dia seguinte ficar dirigindo por 7/8/9 horas pode ser torturante.

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A atenção da organização nos detalhes é algo que chama muito a atenção.

O MD é nacionalmente conhecido pela organização e pela qualidade dos seus serviços, isso notamos logo na retirada do kit, o local escolhido pela SportsDo foi o Lagoa Iate Clube (LIC) e chegando lá demos de cara com um salão super decorado e preparado para receber os corredores com exposição das medalhas de todas as etapas do circuito, lojas com equipamentos esportivos com preços diferenciados para os atletas, quick massage e uma estrutura de retirada de kit muito bem organizada e rápida. Retirei o meu kit sem fila e ali já senti um super incentivo da organização que tratava com muito carinho os mais de 70 atletas inscritos no desafio Individual (Insane 65k).

A noite rolou um simpósio muito completo sobre os trechos, instruções aos atletas e algumas dicas bacanas como o special needs e como seria feita a logística tanto para o revezamento quanto para o individual. Após toda a conversa o Kiko da SportsDo chamou toda a galera do individual lá na frente para dar mais algumas palavrinhas sobre a prova, pediu uma salva de palmas para nós e salientou alguns pontos importantes do percurso. Todos instruídos, fomos pra casa descansar porque o dia seguinte seria looooongo.

Nos encontramos todos no mesmo lugar no sábado, onde os corredores tinham um estacionamento grande a 50m da largada o que deixou todo mundo muito mais tranquilo. Alinhamos todos para a prova e ali dá pra se perceber a energia diferente que essas provas de longa distância tem, todo mundo se cumprimentando, conversando, rindo um monte da porradaria que seria o restante do dia. Era muito comum observar corredores perguntando se o companheiro do lado estava com gel suficiente, se precisava de alguma coisa ou combinando de correr os trechos juntos, uma vibe muito legal que inspira a todos ali. Eu particularmente não estava tendo um dia muito bom, talvez influenciado pela ansiedade ou reflexo da minha má alimentação nos dias que antecederam a prova acordei com um quadro de diarréia e vômito muito agudo o que me deixou bem cético a respeito da prova. Mesmo sem saber no que iria dar, resolvi alinhar e conquistar um trecho por vez afinal esse é o espírito da corrida de montanha.

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A prova tem MUITOS km de areia e duna o que a torna bem mais dura.

Largamos pontualmente as 7h e a vibe ali era intensa, a primeira perna passou de forma tão solta que eu nem vi, quando percebi estávamos nos aproximando do primeiro posto com 10k na conta. O corpo tentava se ajustar mas a adrenalina ainda estava soberana a ponto de mascarar os efeitos que surgiriam um pouco depois. Logo no começo do segundo trecho tive uma dor de barriga extremamente limitante que me fez caminhar quase o trecho inteiro. Era aquele suor frio que todo mundo que já passou por isso sabe como é. Consegui tocar até a segunda troca lá pelos 15km aonde com a ajuda de um pessoal do restaurante anexo consegui um banheiro para fazer o que era preciso. Entre chegar, avaliar o químico, procurar outra opção, achar, fazer o que tinha que fazer, voltar pra hidratar e encher as garrafas pra seguir viagem foram mais de 40 minutos o que deu um balde de água fria em qualquer uma das minhas pretensões. Segui tentando encaixar com a cabeça focada apenas em rodar o máximo possível.

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Trecho bom do “retão” do Rio Vermelho.

Lá pelo km 21 o corpo pareceu que já não sofria tanto e as coisas foram ficando mais contornáveis, devido a várias paradas e caminhadas enquanto a barriga ainda não estava “estável” havia perdido muito tempo então resolvi fazer as contas para saber se conseguiria chegar no km 35 antes do corte que era as 12:50h. Não sou muito bom em matemática mas naquele momento nem o Tristão Garcia fez contas tão rápidas e resolvi tocar pra chegar no corte porque era possível. Nisso havíamos passado pelas dunas, pelo morro tenso do 3º trecho, pelos peladões lá da Galheta e estávamos nos encaminhando para o Rio Vermelho, uma reserva IRADA que tem um retão entre as árvores muito bom de correr, ali foi só alegria porque o meu advil tinha funcionado e as dores estavam bem mais tranquilas. Tocamos até chegar em uma outra duna que precedia um trecho de riacho com água pelos joelhos aonde todos deveríamos passar antes de chegar ao posto do km 35. Finalmente ele estava lá e ainda era meio dia, eu ainda estava no jogo.

Havia coca, comidas, gel e a nossa sacolinha do special needs naquele posto. Na minha eu havia colocado um Endurox R4 que esqueci de tomar, assim como meias secas, um tênis seco e umas batatas. Fui lavando os pés bem com calma, passando vaselina e me preparando para seguir quando escuto a conversa do Neumann, um corredor super bacana que estava ali no corte também com bastante dor nos pés, ele estava falando que o tênis dele estava machucando demais e não teria condições de terminar a prova. Naquele momento eu comecei a fazer uma avaliação mais criteriosa da minha situação: já tinha um acumulado grande de km e o meu corpo não tinha pego no tranco em nenhum momento, o calor de mais de

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O riozinho que fez a areia dentro do tênis virar cimento.

34 graus judiava e o meu intestino teimava em voltimeia se voltar contra mim, as pernas estavam zeradas mas uma dor chata e aguda na parte de trás do joelho esquerdo (que na terça-feira pós prova descobri que havia sido uma compressão de menisco) limitava meus movimentos em alguns momentos até para caminhar. Não pensei duas vezes e ofereci ao Neumann o meu tênis seco pois era do mesmo número que ele calçava. Ele aceitou, calçou os kichutes e saiu para a aventura na hora (fiquei sabendo depois que ele terminou a prova super na raça, parabéns Neumann!). Já eu coloquei meus tênis no pé e a certeza na cabeça de que pelo menos os 7km que faltavam para a maratona eu precisava rodar.

Rumei para o próximo posto e a dor no joelho foi aumentando consideravelmente, as pernas estavam boas mas já tinha muita instabilidade nas descidas e não me sentia mais bem com isso, realmente a cabeça não estava ok. Sabia que ninguém mais me tiraria da prova antes dos 48km mas que depois disso entraríamos em um “trechão” de 15km que só terminaria no 65km, então fui aproveitando o resto do percurso que me restava com calma, refletindo comigo mesmo sobre os motivos de estar ali e agradecendo pela oportunidade de poder estar praticando o esporte que eu tanto gosto em lugares fantásticos como esse do Mountain Do Lagoa. Passei a maratona mas a minha cabeça não me levou muito longe dali, acabei encerrando minha participação muito feliz por ter conseguido em um dia tão adverso ainda fechar uma maratona em condições tão duras. Vendo depois o arquivo do Suunto vi que no acumulado fiquei mais de 1:15h parado, o que foi decisivo para o meu abandono.

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Pisos muito variados fazem dessa prova uma das aventuras mais “completas” do Brasil hoje, sem sombra de dúvida.

Decidi não ouvir música em nenhum trecho da prova porque sabia que precisava tirar um aprendizado daquela situação e acho que a maior lição é que se precisa treinar a cabeça tanto quanto se treina o corpo. Saio dessa prova com a certeza de que estou no caminho certo e que as novas experiências serão completamente diferentes. A distância já não assusta mais.

Bem, meu time fantástico de apoio formado pela minha prima Rê, minha mãe e a minha sempre intensa vó (também conselheira para assuntos de estratégia de batata cozida) foram me buscar lá no meio do nada para que eu voltasse feliz a civilização. No domingo a organização da prova sempre oferece um almoço aos corredores com um buffet incrível e a exibição das imagens do dia anterior assim como a premiação. Encontrar a galera lá mancando no dia seguinte foi muito engraçado e as histórias sobre a prova eram as mais diversas possíveis. Comemos como se não tivéssemos 350km de viagem pela frente e na saída ainda recebemos um cd com as imagens da prova já gravados para todos os atletas. Um presente super bacana para coroar um final de semana fantástico na ilha da magia.

Minhas considerações finais sobre o MD Lagoa são as seguintes: QUE PROVA. Nós aqui do Paraná sempre ouvíamos falar que o Mountain Do era super organizado mas que os percursos eram mais “bonitos” do que “legais, essa prova veio para afastar de vez esse rótulo. O percurso duríssimo deu todo um drama positivo para a corrida e a organização é realmente incrível. A cada 3km (juro) havia um posto de hidratação com água GELADA o dia INTEIRO, isso é incrível quando se pensa em uma prova que se desenrola por 65km. Os postos de troca tinham gatorade e alguns tinham comida, é uma competição que o corredor pode tranquilamente largar sem nada com a segurança de que vai ter tudo que precisa durante o percurso. Haviam staffs em TODOS os pontos de dupla interpretação, que faziam questão de ser muito educados e tinham um respeito muito bacana pelos corredores principalmente com o pessoal do individual, dava pra sentir o carinho e admiração de vários pela loucura que estávamos ali fazendo (isso sem dúvida deu um gás gigante em vários momentos tensos da prova). A vontade é realmente voltar ali para terminar porque a prova é uma delícia de correr, mas aquela quantidade de areia vai manter essa vontade meio longe por enquanto, eu acredito. Se você está afim de encarar esse desafio não pense duas vezes, é uma prova digna das grandes e enche a gente de vibe positiva e bons momentos.

Obrigado Mountain Do. Nos vemos nas montanhas.

Andre Raittz

Mountain Do Lagoa da Conceição
9.5Nota
Organização9.7
Percurso9.1
Dificuldade9
Kit9.5
Segurança9.6
Vibe10
Votação do Leitor 3 Votos
7.0