Tem duas coisas que, quando eu fico sabendo, me doem. Mas doem fundo.

Uma é quando alguém cai e se machuca. Quantas manhãs escuras, quanta dedicação, quantos sonhos adiados?

Outra é quando eu tenho notícia de bikes roubadas. Sinto-me roubado também. Tristeza profunda que só quem tem um carinho enorme pela magrela vai poder entender.

Mais triste é saber que esse é um assunto recorrente em colunas, blogs. Muitas vezes repetitivo. E continua a acontecer.

Sou de São Paulo. Aqui, como em qualquer outro lugar desse país, não temos infraestrutura adequada para treinos. Estes são feitos dentro do campus da USP por uma maioria esmagadora de atletas. Não só triatletas, mas também ciclistas, corredores. Tem um atleta que faz marcha olímpica. Recentemente tenho visto nos finais das manhãs pessoas com skis adaptados com rodinhas…com aquelas hastes e tudo.

É um espaço ENORME com mais de 8 milhões de metros quadrados com retas grandes (e atualmente mantidas esburacadas para ver se desistimos e abandonamos o lugar), algumas subidas e algumas curvas. Teria espaço pra todos, se todos fossemos educados e se nos quisessem lá dentro.

Um pouco de história.

O projeto da USP é de 1930. Foi impulsionado na década de 60 pelos militares que gostariam de ver movimentos estudantis longe dos centros. Hoje o “centro” engoliu a USP, mas naquela época era realmente um lugar periférico. Também na década de 60, a USP passou por adaptações para receber os Jogos Panamericanos de São Paulo.

Hoje o campus USP abriga prédios de alojamentos, faculdades e institutos de pesquisa. É administrado por uma instituição privada. Uma autarquia que usa espaço do estado e tem autonomia sobre este.

O passado político deixou marcas. Se os militares queriam os estudantes longe do centro, hoje os estudantes não deixam a polícia entrar. A segurança é feita por uma guarda universitária mal aparelhada e com muita má vontade. Ao lado da USP, existe uma comunidade, a San Remo que deita e rola lá dentro. Existem esquemas conhecidos de tráfico de drogas e ninguém faz nada. Recentemente, há cerca de 2 anos, a Reitoria foi ocupada porque a polícia prendeu alunos que fumavam maconha dentro do campus. Queriam a PM fora de lá, para que o livre pensar (e consumo de drogas) fosse assegurado.

Roubos, furtos, estupros. Isso faz parte do dia-a-dia do campus.

Bicicletas roubadas também. No início aconteciam em áreas periféricas da USP, próximo à saída para a comunidade San Remo. Hoje, os roubos acontecem em áreas de grande concentração de pessoas. Até tiros contra carros já foram disparados e por um acaso, nada aconteceu à motorista.

Desde o início de 2014, quatro bicicletas foram roubadas.

A USP não se pronuncia. Não somos bem vindos. Nos últimos 20 anos, a USP tem se fechado cada vez mais. Antes era praticamente um parque. Hoje, o acesso é controlado. Há uns 5 anos, fomos proibidos de treinar lá dentro. Uma grande mobilização foi feita e houve um acordo com relação ao uso do local por assessorias esportivas e atletas em geral. Acordo que, sinceramente, não foi cumprido por quase ninguém, a não ser pela proibição das tendas e pela limpeza do lugar. Locais restritos e horários nunca foram respeitados. Então, não é surpresa esse silêncio e não seria surpresa uma nova “expulsão”.

Enquanto isso, assistimos de camarote. Todo final de semana pipoca um caso. Agora estão pipocando também durante a semana. Isso não é privilégio paulista, MEU….Acontece em Brasília, no Aterro do Flamengo e em todo lugar que tem alguém pedalando.

O que é preciso pra se sair da inércia? Quando alguém vai fazer alguma coisa? Vamos esperar alguém se ferir seriamente?

Quanto mais vejo a minha bike presa ao rolo na varanda do meu apartamento, mais tenho a certeza que ali é o lugar dela. E cada vez mais a gente vai se trancafiando, pra que bandidos possam agir livremente e impunemente.

Triste sina.

Daniel Blois